Solo de Viola

Ele era um violeiro dos bons. Viola caipira.
Tocava no sítio do patrão com outros peões: violão sete cordas, violão de seis, viola de coxo, gaita de mão, acordeom. Muita cantoria.
Orquestra completada com a passarinhada que ele tanto amava ver e ouvir soltos pelos campos.

Vez ou outra uns rabos de saia, muita dança e folia.
Dormia tarde mas acordava cedo, ouvindo os pássaros.
Todo santo dia.

Trabalhou muito. Comprou a chacrinha pequena e singela, córrego limpo lá mais pro fundo, três porcos, algumas galinhas.
Limpou tudo, cuidou da horta e do pomar. Aprumou, como dizem.

Conheceu a moça mais bonita da vila. Apaixonaram-se e casaram-se rápido. Viveram felizes, mas não tiveram filhos.
Tocava a viola pra ela ao cair da tardinha, tendo a orquestra de passarinhos como companhia.

Mas a idade chega. Mais cedo do que gostaria. A companheira de saúde frágil, dona do seu coração por poucos anos, partiu muito antes que ele. O coração dela era fraco, disseram os médicos. Ele sabia que não. Era o mais forte e bondoso coração que havia.

Então conheceu a tristeza e a solidão. Uma solidão diferente de antes pois antes ele viveu sozinho por muito tempo. Mais tempo até do que com sua amada.

Mas antes ele não conhecia a saudade. E essa saudade de amor doía como o diabo.
A lida do dia a dia só apaziguava um pouco essa dor. Tinha que continuar tocando as coisas da chácara, cuidar dos bichos, da horta, do pomar; vender sua produção na vila, comprar seus mantimentos; cuidar da casa, cozinhar, limpar o terreiro.
E a lembrança dela em tudo pairava. E muitas vezes tinha que parar o serviço que era pra mó de desembaçar as vistas, secar a boca salgada mais de lágrimas que de suor.

Até que um dia resolveu limpar o baú, doar as roupas da falecida, arrumar um pouco o quarto onde só entrava para dormir cedo e nem acendia a luz. Precisava tirar o pó. Queria tirar o pó do coração se pudesse.
E achou a viola caipira. Limpou a velha companheira, tanto tempo encostada. Lembrou do tempo das festas com os peões.
Doeu mais saudade lembrando de quando tocava só pra ela. Pensou em doar o instrumento junto com as roupas, passar para alguém com ânimo pra pontear.

E sem querer, na limpeza, soou um acorde desafinado. Não resistiu e começou a afinar a viola, que até para doar uma coisa tem que se ter cuidado.
E um casal de sabiás veio à janela espiar. Cantaram bonito, como que chamando o violeiro. Um arrepio no corpo o incitou a atender o chamado. E para a varanda se foram, violeiro, viola e sabiás.

Ponteou bonito, mas sem coragem pra cantar. Mais pássaros vieram e não se fizeram de rogados: os dois sabiás, um uirapuru e um rouxinol, até passou um cardeal rapidamente, depois um pássaro preto e depois outros iam e vinham. Tanta voz cantando que o som da viola quase sumia. Mas veio um caboclinho 6 notas ajudar na harmonia.

A sinfonia foi da tardinha até altas horas. Com revezamento de pássaros, pausa do violeiro pra se banhar, comer alguma coisa e dar um banquete merecido pros companheiros de seresta.

Lua cheia lá em cima e o violeiro que tanto tocou, de repente se tocou que nunca estava sozinho. Que sua amada talvez estivesse ali ao seu lado com os pássaros. Ou talvez não, mas podia se lembrar dela e seguir feliz. Que a alegria de tocar era tudo o que ele mais precisava pra isso.
Lembrar que em nenhum solo de viola a gente está só…

Ainda mais quando existe tanto amor.

 

 

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